O senhor Ivan sempre dizia que toda criança é especial à sua própria maneira. Em alguns casos, essa maneira era bem clara: a Vanessa, da rua de baixo, fazia desenhos lindos na calçada com giz colorido. A Ana tinha o cabelo mais comprido e o Robin andava de bicicleta mais rápido do que todo mundo.
E o Nory? Norberto, a quem todos chamavam de Nory, era o mais especial de todos, porque nunca ficava entediado.
Ninguém sabia como era possível. Quando chovia o dia inteiro e todos tinham que ficar dentro de casa, as outras crianças não paravam de perturbar os pais: "Mamãeeee, estou tão entediado!" e "Papai, que tédio!", reclamavam.
Mas o Nory, não. Nory nem percebia que estava chovendo, porque assim que tinha acordado de manhã já tinha começado a construir alguma coisa com rolos de papel higiênico.
Quando saía para fazer compras com a mãe e o irmãozinho e precisavam esperar na fila do caixa, seu irmão reclamava e resmungava de tédio. Mas Nory contava todos os pacotes de chiclete e bombom na prateleira perto do caixa e, depois, apontava para o irmão mostrando que o caixa fazia barulhos de bipe como um robô, e também se parecia um pouco com um. No final, a mãe tinha que puxá-los depois de terminar de pagar, porque eles adoravam tanto ouvir os bipes robóticos.
Quando Nory e seus amigos foram fazer um passeio ao zoológico e tiveram que aguardar na sala de espera chata da estação, porque o trem estava atrasado, Nory percebeu que os padrões nos azulejos do chão pareciam uma pista de obstáculos. Então, ele inventou um jogo, no qual tinham de pisar calmamente de um azulejo a outro até chegar à porta. Ainda estavam brincando felizes quando o trem chegou…